Repondo a verdade Histórica

Logo_SCMRM_200Desde há muitos anos, que tem sido tradição localizar a Instituição da Santa Casa da Misericórdia de Rio Maior no ano de 1659, não sendo conhecido qualquer documento que faça prova de que esta tradição corresponda à realidade histórica. Depois de um aprofundado estudo com consulta às mais credíveis fontes de informação sobre a história das Misericórdias Portuguesas, chegamos à conclusão de que a nossa Misericórdia só deve ter sido fundada em 1759, tendo o alvará da sua instituição a data de 18 de Abril desse ano.

O erro que tem persistido deve ter resultado do facto de já existir, quando da sua fundação, um albergue com uma capela anexa, também reconhecido como hospício ou hospital o qual era administrado pela Misericórdia de Santarém e que passou para a nossa Misericórdia.

“Em 1 de Janeiro de 1759 os moradores de Rio Maior solicitaram ao Rei D. José I a instituição de uma Misericórdia que tomasse a seu cargo o referido hospital a que o Rei acedeu, concedendo-lhe o dito Alvará com a obrigação de prestarem contas ao Provedor da Misericórdia de Santarém” = Citamos Fernando Duarte – Rio Maior – Estudo da Vila e seu concelho – pagina 29. Também Fernando Pereira de Sousa em “Apontamentos e Excertos de Rio Maior e Vila seu concelho e comarca” a pagina 179, refere a provisão que instituiu a Santa Casa da Misericórdia, com data de 13 de Abril de 1759, apenas divergindo 5 dias, da citação anterior. Costa Goodolphim, na monumental Obra “As Misericórdias”, Edição de 1895 e o Dr. Fernando da Silva Correia, no mais completo trabalho escrito sobre as Santas Casas, “Origens e Formação das Misericórdias Portuguesas, Edição de 1944, pagina 585 situa a fundação da Misericórdia de Rio Maior no ano de 1759.

Parece portanto bastante seguro, por que alicerçados em obras de historiadores de nível de Costa Goodolphim e Dr. Fernando da Silva Correia que profundamente estudarem as Santas Casas da Misericórdia e ainda nas citadas obras dos historiadores locais, situar a instituição da nossa Misericórdia no ano de 1759. O Dr. Fernando da Silva Correia na notável obra citado “Origem e Formação das Misericórdias Portuguesas” refere Que: “A respeito das datas das fundações de certas Misericórdias é natural haver confusão com a da sua instituição de confrarias e hospitais anteriores”. Supomos que a existência de um hospício ou albergue anterior, que era, como já referimos, administrado pela Misericórdia de Santarém, possa estar na origem da tradição de localizar a fundação da nossa Misericórdia no ano de 1659, isto é um século antes da data referida pelos quatro citados historiadores.

Procuramos encontrar nos arquivos da nossa Santa Casa, elementos que nos pudessem elucidar na resolução deste problema, que reputamos muito importante para a história da nossa Instituição, nada encontramos, nem sequer o alvará que já referimos, com data de Abril de 1759. Todavia, verificamos que, na capela dos Passos, situada no antigo Largo do Rossio, e na Cruz que em cima, tem gravada na pedra a data de 1760. Se tivermos em conta que uma das obrigações assumidas pela Irmandade da Misericórdia era a de celebrar as cerimónias Pascais, nas quais se incluíam as Procissões dos Passos e do Enterro do Senhor, não é crível que instituída a Misericórdia em 1659, só passados 101 anos fossem construídas as Capelas dos Passos, que integravam as Cerimónias Procissionais.

Sendo a Santa Casa da Misericórdia instituída em 18 de Abril de 1759, com o entusiasmo, que se adivinha dos Irmãos que a fundaram, compreende-se que um ano depois, já tivessem erguido as capelas dos Passos, para na Páscoa de 1760, poderem celebrar com a pompa desejada as Cerimónias Procissionais. Muito se tem escrito sobre as Misericórdias Portuguesas, suas origens e a extraordinária e dinâmica acção, quer no campo da saúde, quer na área da Acção Social.

Uma das mais brilhantes obras publicadas recentemente é a “História da Actualidade das Misericórdias” escrita pelo mais conceituado e esclarecido Irmão das Misericórdias, onde tem desempenhado os mais altos cargos, o Dr. Carlos Dinis da Fonseca, livro lançado no Congresso realizado em Évora. Neste notável trabalho, também o Dr. Carlos Dinis da Fonseca, publica uma relação de todas as Misericórdias existentes no país, com o ano da sua fundação, localizando a de Rio Maior em 1789. Trata-se claramente de um lapso, pois, necessariamente deveria ter escrito 1759, facilmente detectável, até, pela data existente na cruz da Capela do Rossio. = 1760. De qualquer forma, vem confirmar que a nossa Irmandade da Misericórdia foi fundada no Século XVIII e não no Século XVII como erradamente tem sido até agora admitido. Assim se repõe a verdade Histórica.

Estamos neste momento a encerrar as celebrações dos 500 anos da fundação da 1.ª Misericórdia Portuguesa pela Excelsa Rainha D. Leonor, mulher do Rei D. João II e irmã do Rei D. Manuel I, a qual, com a colaboração de Frei Miguel Contreras, frade Trinitário espanhol, a instituiu em 15 de Agosto de 1498, na capela da Terra Solta ou Nossa Senhora da Piedade na Sé Catedral de Lisboa.

Estas comemorações tiveram início em 15 de Agosto de 1998 na velha Sé de Lisboa em soleníssima celebração presidida por sua Exma. Reverendíssima o Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo. Seguiram-se um solene congresso extraordinário e Mundial que teve lugar no mesmo ano, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa e outro na cidade do Porto em 1999 e vão terminar em Maio deste ano 2000, em São Salvador da Baia, no Brasil. Todas as Misericórdias Portuguesas tiveram como modelo a Misericórdia de Lisboa, cujo Compromisso foi adoptado por todas elas, e não só as que se surgiram de norte a sul de Portugal, mas as que se disseminaram por todo o mundo onde os portugueses chegaram. Estávamos então em epopeia das viagens marítimas, que levaram à descoberta de outras terras e outras gentes.

Precisamente no ano da fundação da 1.ª Misericórdia, Vasco da Gama chegara à Índia e em 1500 Pedro Alvares Cabral descobria o Brasil. Dois notáveis acontecimentos, que marcaram uma viragem histórica da humanidade. Por outro lado, também eles foram decisivos, no aparecimento destas maravilhosas Instituições, que são as Misericórdias Portuguesas. As Viagens marítimas levaram nas naus e caravelas os homens de Portugal, atraídos pela aventura e pela melhoria de vida que representavam. Todos sabemos da história dos descobrimentos, que muitos não voltaram, ficando as mulheres e crianças, a maior parte com graves situações de sobrevivência. A fome, a peste e as guerras dizimavam a população portuguesa, em plena Idade Média, na qual, a insalubridade, a falta de recursos alimentares e as graves doenças, requeriam uma ajuda, à qual a generosa Rainha D. Leonor deu uma pronta e magnifica resposta com a genial ideia de instituir a 1.ª Misericórdia, cujo programa de Acção era e ainda hoje se mantém, pôr em prática as 14 obras de misericórdia, 7 corporais e 7 espirituais.

Como se lê no compromisso da Misericórdia de Lisboa:
“A mesma era uma confraria e irmandade de 100 homens de boa fama, sã consciência e honesta vida, tementes a Deus, guardadores dos seus mandamentos e humildosos a todo o serviço de Deus e da dita confraria”.

Passados 500 anos, estas magnificas Irmandades mantêm o seu espírito e programa de acção ao serviço das comunidades onde se encontram inseridos, não obstante terem sofrido vários e graves situações, que não diminuíram o seu espírito de perseverança e a fantástica capacidade de adaptação aos ventos da história, procurando sempre manter a sua independência, por vezes sarciadas por transformações Sócio – Políticas, que lhe foram adversas. A Misericórdia de Rio Maior, como todas as suas 402 irmãs existentes no continente, na Madeira e nos Açores, não podia deixar de celebrar a instituição da primeira Misericórdia em 15 de Agosto de 1498, modelo de todas as demais.

O segundo evento que estamos a festejar é a fundação da Misericórdia de Rio Maior, instituída por alvará de D. José I de 18 de Abril de 1759, ou seja os 240 anos da sua existência. Quando procuramos documentar-nos sobre o desenvolvimento das acções da nossa Santa Casa fomos surpreendidos por, só encontramos nos seus arquivos livros de Actas e documentação a partir de 1867. Por isso, dos primeiros 108 anos da acção da Misericórdia de Rio Maior são inteiramente desconhecidos.

Tudo o que se dissesse seria pura ficção. Em 1867 estávamos em pleno liberalismo. As invasões francesas tinham deixado um rasto de destruição, que assolou o pais. As Misericórdias, também elas, sofreram graves delapidações, muitas Igrejas e cartórios foram saqueados e destruídos. Talvez a nossa Instituição não escapasse aos vandalismo das tropas de Napoleão. Não nos esqueçamos de que, junto da ponte de S. Gregório em Rio Maior, houve escaramuças, durante as quais foi ferido gravemente o General Junot.

As Invasões francesas seguiram-se as lutas liberais, nas quais foi derrotado o Rei D. Miguel, que teve o seu quartel general numa casa junto da Igreja da Misericórdia, aquando da batalha de Almoster. O liberalismo, o estatismo e o laicismo abalaram profundamente as Misericórdias, afectadas nas suas vertentes espirituais, institucionais e económicas e financeiras: lê-se na citada obra “História e actualidade das Misericórdias” do Dr. Carlos Diniz da Fonseca. Tuteladas pela Igreja como Irmandades canonicamente erectas, as Santas Casas de Misericórdia passaram a ser tuteladas pelo poder administrativo, representado pelo Governador Civil e Administrador do concelho, a quem tinham que prestar contas da sua gestão, nada podendo ser decidido sem a sua intervenção. Com o seu propósito laicizante as leis da Desamortização de 4/04/1861 e 22/06/1866 afectaram profundamente o património das Santas Casas, que foram forçadas pelo Estado a vender os seus bens imóveis, convertendo o
valor daí resultante em títulos de Dívida Publica, auferindo juros de taxas diminutas, do que resultou verem-se privadas de rendimentos, para apoiarem as populações necessitadas de ajuda, sobretudo na área da Saúde, na qual as Misericórdias desenvolveram uma notabilíssima acção. Praticamente todas as Misericórdias possuíam hospitais, uns de menor outros de maior dimensão e melhores equipamentos, nos quais os doentes, especialmente, os de mais fracos recursos, encontravam apoio e tratamento
adequado. Com excepção dos hospitais Civis de Lisboa, Porto e Coimbra, quase na sua totalidade hospitais escolares, todos os outros eram pertença das Misericórdias.

ConstrucaoSCMRMR_foto1-1A história dos 240 anos da nossa Misericórdia deve, em nosso entender ser dividida em três partes ou capítulos, correspondendo cada um deles a acções diferenciadas, provocadas por acontecimentos, que alteraram a sua forma de actuar na prática das 14 obras de Misericórdia. Na primeira parte vamos referir embora muito sumariamente, a ação desenvolvida desde a sua fundação (ou melhor desde 1867) até 1935, data da inauguração do Novo Hospital. Na Segunda parte, que é, quanto a nós o virar de uma importante página da história da Santa Casa de Rio Maior, inicia-se naquela data e prolonga-se até 1975. A terceira parte marca numa grande transformação na vida da Misericórdia e também na história do País e desenvolve-se, desde aquele ano de 1975 até ao final de 1999, no qual se perfizemos 240 anos da sua existência.

No primeiro Livro de Actas que encontramos no Arquivo da nossa Santa Casa,inicia-se com a acta da reunião da Mesa de 28 de Julho de 1867, na qual o Secretário João Maria de Oliveira usou da palavra e disse: “… que enquanto seja novo nesta corporação, sabia que desde há muito existe o desejo de destruir o imundo Albergue, que a Misericórdia tem, para o fazer suprir por um outro decente e com as possíveis condições higiénicas. Algumas administrações destas Santas Casas, e não só estas, como também uma comissão de fora desta Irmandade, tentaram na realização daquela obra, que não poderam conseguir, em razão das muitas dificuldades que se lhe antepuseram. Sabe que esta dificuldades ainda existem e por isso, vencê-las era uma glória para a Mesa. Propunha pois, que esta Administração, a exemplo daquelas, tentasse na realização de tal obra, trabalhando eficazmente, porque só assim se vencem dificuldades”.

Transcrevemos na integra e com a redacção da época, porque este texto representa a realidade viva da luta desde tão recuados tempos e até aos nossos dias, luta travada pelas Mesas Administrativas, que se sucederam, para conseguirem executar, contra tudo e contra todos, as acções necessárias e precisas, na realização e prática das 14 obras de Misericórdia. Logo a Mesa de 1867 tratou de um orçamento da madeira necessária e deliberou pedi-la ao governo, do pinhal real de Leiria e que se recorre-se à filantropia dos povos deste concelho, a fim de obterem donativos para a mesma obra. Na sessão seguinte foi apresentada e aprovada a planta da edificação. Como nesse tempo já havia burocracia. O Secretário, depois de reflectir, propôs que se desistisse daquela ideia da madeira do Pinhal de Leiria, “não só pela incerteza de se obter, como pelo muito tempo que havia de decorrer primeiro que obtivesse qualquer despacho do governo.”. Optaram por pedir a madeira, ao lavrador Rafael José da Cunha, que julgo ser antepassado dos actuais donos da Quinta da Amieira. Curiosamente, todas as madeiras, de que a Misericórdia tem necessitado, nas suas obras, quer do Albergue, quer da Igreja e na construção e na manutenção do Novo Hospital têm sido generosamente oferecidas, pela ilustre família Tavares da Veiga, proprietários daquela Quinta. Ficamos pois a saber que o antigo Albergue, depois de reconstruído em 1867, daria lugar ao Hospital dos pobres ou Albergue dos pobres, como naquela ata se refere.

Esse edifício, onde hoje se encontra a ConstrucaoSCMRMR_foto2G.N.R., levou então uns anos a construir, pois em 2 de Novembro de 1875 foi deliberado um orçamento de 440.675 réis para a empreitada do “aparelhamento e colocação do solho e do forro” adjudicada por decisão da Mesa de 5 de Fevereiro de 1876. Finalmente em acta de 18 de Março de 1877 foi decidida “a abertura das enfermarias do Albergue, depois das obras ali efectuadas, financiadas por uma comissão de angariação de fundos, que reuniu a verba de 700.000 réis, empregada na conclusão do edifício do Albergue, cuja obra foi principiada por iniciativa da caridosa Senhora D. Maria Podenciana Maia, moradora que foi nesta vila (faleceu em 1872), como consta do Livro de assento desta Santa Casa, e com 19 camas completas, para perfazer o numero de 24, com 5 que foram doadas para o mesmo Albergue. Esta comissão apresentou uma relação nominal de todas as pessoas, que concorreram com dinheiro e donativos, para o Albergue e tendo recebido 1.500 prendas que foram destinadas para leilão, o que teve lugar nos anos de 1874, 1875 e 1876. No leilão das prendas apurou-se aproximadamente 400.000 réis, a que acrescem 180.000 réis de juros que aquele dinheiro rendeu”. Foi celebrado um “Te-Deum” em acção de graças e um jantar a 13 pobres, no mesmo Albergue a espensas dos 13 irmãos que compunham a Mesa Administrativa.

Estas enfermarias do Albergue eram destinadas a receber os pobres e transeuntes que passavam para o hospital das Caldas da Rainha e deste para Santarém. Em 5 de Julho de 1890, foram abertas as propostas do concurso para os lugares de andante e enfermeira, para a Santa Casa e Hospital, sendo admitidos para os referidos lugares, por unanimidade de votos, José Carvalho Grifo e sua mulher.

O Albergue através dos anos não serviu apenas de hospital, pois da acta da sessão da Mesa de 28 de Outubro de 1892, consta que a Câmara Municipal solicitou a cedência de 2 salas para instalar provisoriamente o tribunal da comarca, o que foi concedido. Porém, logo em 24 de Outubro de 1893 em oficio dirigido ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Rio Maior pode ler-se: “não se pode dispor de mais casa alguma pertencente ao Albergue, além dos que já foram cedidos à Exma. Câmara para Tribunal e casa de testemunhas. E sendo na ocasião da cedência desarmadas as camas, foram estas encontradas mais ou menos deterioradas, estando para isso a proceder-se ao seu arranjo, a fim de poderem estar prontas logo que as ditas casas estejam despejadas”.

Em ata de 7 de Maio de 1901 consta a apresentação de um oficio da Câmara Municipal a pedir a cedência da Sala Grande do Hospital, para ali ser alojada a aula do sexo feminino, durante o tempo preciso para as obras nos edifícios escolares, o que foi autorizado. Este albergue funcionou sempre como hospital dos pobres até à inauguração do novo edifício do Hospital em 1935. Penso que a todos vós se põe esta interrogação. Se os irmãos desta Misericórdia levaram 10 anos para reconstruir o Albergue, edifício de pequenas dimensões e que foi erguido com enorme esforço, como é que fizeram a sua manutenção durante tantos anos que se seguiram à sua abertura?

ConstrucaoSCMRMR_foto3Demais, tendo em conta que os pobres e os passantes, também pobres, nada podiam pagar. Põem-se portanto o problema de saber quais eram as fontes de receita da nossa Misericórdia na 2.ª metade do século XIX e nos primeiros decénios do século XX. A Santa Casa possuía domínios directos de foros, cerca de 40, que lhe proporcionavam receitas anuais em géneros e dinheiro. As dádivas que os benfeitores lhe proporcionavam e as quantias resultantes da venda forçada, pelas Leis da Desamortização, dos imóveis que lhe legavam, eram dados em empréstimo com juros, que oscilavam entre os 6 e 7%, traduzidos em contratos de mutuo, cuidadosamente elaborados com hipotecas e prévia avaliação dos prédios dados em garantia. Rara é a acta das Sessões da Mesa em que não se delibera sobre este assunto, pois estes contratos de mutuo tinham uma grande rotação e normalmente um curto prazo de utilização. Entre os benfeitores com dádivas em dinheiro e equipamentos para o Albergue destaca-se o Sr. David Manuel da Fonseca, que faleceu em 21/11/1892.

Além de solenes exéquias promovidas pela Santa Casa, foi por esta requerido à Câmara Municipal, que à Rua do Alecrim, fosse dado o nome de David Manuel da Fonseca, que ainda hoje mantém. Por outro lado, havia outras receitas curiosas, como por exemplo: O terrado da Feira Anual que se realizava junto à capela de S. Sebastião, fundada em 1569, na actual Avenida 5 de Outubro, era cobrado pela Misericórdia, a qual também dispunha de madeiras para alugar aos feirantes. Em acta da Sessão da Mesa de 15 de Agosto de 1872 consta, «…que foi decidido aumentar a Tabela de preços de aluguer da madeira aos feirantes concorrentes à Feira Anual de Setembro, nesta vila em consequência do acordo entre a Misericórdia e o Presidente da Câmara Municipal, em virtude do Art. 17º do Código de Posturas, que rege este município, ficando a cargo da Misericórdia o cumprimento dele e os feirantes dispensados do depósito, por lhes ter sido aumentado o preço do aluguer. Tabela 1 Tábua – $ 025 réis Banco para quinquilheiro – $0040 réis Varola – $ 070 réis Lugar para mendrico – 1 tábua $ 120 réis Pau de costado $ 045 réis Lugar para Bricheiro -. 2 tábuas $ 145 réis Travessanho $ 025 réis. A arrematação anual para venda a azeitona, das muitas oliveiras dispersas que a Misericórdia possuía, era também uma fonte de rendimento para a manutenção do Albergue.

Em 1867 a Misericórdia de Rio Maior regia-se pelo Compromisso da Misericórdia de Lisboa. Pelo que em 5 de Dezembro desse ano foi convocado o Definitório para se proceder à aprovação do «Compromisso»- Acta de 5 de Dezembro. Logo em 12 do mesmo mês em reunião conjunta da Mesa e do Definitório foram aprovados todos os artigos do Novo Compromisso. Passados menos de 30 anos outro Compromisso foi elaborado e aprovado em 1893 com data de 7 de Agosto do mesmo ano, foi enviado ao Administrador do Concelho um exemplar do Novo Compromisso da Irmandade, feito de harmonia com a Portaria Circular do Ministério do Reino de 6 de Dezembro de 1872, para que aquele o enviasse ao Senhor Governador Civil, para análise e se estiver no caso de ser aprovado, se digne devolve-lo para se passar a limpo e enviar então os 3 exemplares que a Lei exige. Em acta de 17 de Setembro de 1894, foi presente um oficio do Administrador do Concelho acompanhando o Compromisso de 1894, do qual foram impressos 500 exemplares.

Aqui como em muitas outras situações, se nota efectiva ingerência das autoridades administrativas na vida interna e na gestão da Santa Casa. A mudança de regime, com a implantação da Republica em 1910, também veio abalar as Misericórdias e obrigou logo em finais de 1911 à reforma do compromisso de harmonia com a Lei da separação. Também nos primeiros anos da Republica, as Irmandade do Santíssimo Sacramento e das Almas foram incorporadas com todos os seus bens na Irmandade da Misericórdia. A Capela de São Sebastião, junto da qual se fazia a Feira Anual de Setembro, que havia sido incorporada na Misericórdia, por provisão da Infanta Regente D. Isabel Maria em Novembro de 1826 e que tinha sofrido obras de restauro em 1884, foi demolida em 1912 para alargamento da Av. 5 de Outubro. Mas a grande preocupação dos Irmãos da Misericórdia, desde o inicio do Século XX, era a construção de um Hospital, que não fosse apenas para recolher e tratar os pobres desamparados, mas que correspondesse a um novo e moderno conceito, de que o Hospital era para tratar de todas as pessoas doentes, sem ter em conta o seu estatuto social ou situação económica.

Assim, a partir de 1920 houve uma enorme mobilização de pessoas, que se inscreveram como Irmãos, para promoverem comissões de angariação de fundos, escolha do local, elaboração de projecto e dar andamento aquela ideia força, que a todos impulsionava para concretizar a construção do novo Hospital, cuja primeira pedra foi lançada em 1926. Em Janeiro de 1929, sendo Provedor João Ferreira Marques, foi dada de arrematação a mão de obra de alicerces e paredes à vista e muros de vedação, houve licitação e o menor lanço oferecido foi de José Lourenço Vinagre de Benedita ( 13$ 50m3 de parede de pedra e 7$ 90m3, de parede de adobo).

Existe um livro especialmente destinado aos autos de arrematação, desta notável obra, construída muito faseadamente e que só em 1933, estava praticamente terminada, sendo Provedor desde 1932, João Ferreira da Maia. Tratava-se de um edifício hoje ainda existente com algumas ampliações com enorme pé direito com amplas e rasgadas janelas, o que proporcionava aos doente grandes espaços, com enorme arejamento, dentro da concepção da época.

Finalmente em 1935 foi inaugurado o novo Hospital e com ele se inicia um novo Capitulo da História da Misericórdia de Rio Maior. Com a abertura do Hospital da Misericórdia, entra-se na fase mais brilhante da actuação da Santa Casa, na área da Saúde. Tratava-se de um edifício hospitalar de concepção moderna , digamos mesmo arrojada para a época, composto por cave e dois pavimentos, com enfermaria
para homens e outra para mulheres, quartos particulares grandes e largos corredores, que no 1.º piso formavam um hall em cruz, cozinha, dispensas e anexos.

Na cave amplas arrecadações e lavandaria, boas instalações sanitárias, Bloco Cirúrgico e sala de agentes Físicos, Maternidade e Sala para Raio X. À entrada era o Banco e os Serviços de Urgências. Desde o inicio, os serviços de administração Hospitalar e de enfermagem, estiveram a cargo das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, que para tanto disponibilizaram uma Directora, duas enfermeiras e uma Irmã Cozinheira, as quais, auxiliadas por elementos recrutados localmente, fizeram um notável trabalho, cuja qualidade eficiência, foram inexcedíveis, durante trinta e oito anos, e até que, em 30 de Novembro de 1973, a provincial da Ordem, por falta de Religiosas, como se lê do oficio transcrito da acta da Reunião da Mesa, daquela data, as retirou do nosso Hospital. A Saída das Irmãs Franciscanas criou sérias dificuldades á Administração do Hospital, até que em Dezembro de 1974, foi efectuado um contrato de prestação de serviços de uma congregação francesa.

Todos os médicos que faziam clínica no concelho prestaram valiosos serviços no Hospital da Misericórdia, com uma enorme dedicação praticamente sem auferirem honorários pelos serviços prestados, recebendo apenas pequenas quantias, a titulo de compensação para as despesas de deslocações. Sem de qualquer forma desvalorizar o trabalho levado a cabo por todos aqueles ilustres clínicos e dos quais lembrarei apenas aqueles que a lei da morte levou do nosso convívio, os doutores, Augusto César da Silva Ferreira, Alberto Sabino Ferreira, Francisco Pereira Calisto, Vidigal Pais, Alexandre Carvalho, Neuparth Vieira, permitam-me que destaque o grande médico cirurgião Dr. Francisco Cândido Monteiro Barbosa, o qual no inicio dos anos quarenta, sob sua orientação, equipou o bloco cirúrgico, onde efectuou, com a sua enorme proficiência técnica, intervenções cirúrgicas de grande qualidade e resultados espectaculares. A esse grande mestre na área da cirurgia, dotado também de grande espírito de humanidade, desinteresse monetário e amor aos seus doentes, se ficou a dever, em grande parte, o prestigio do nosso hospital. O seu falecimento em 7 de Julho de 1965, foi uma perda irreparável, dificilmente colmatada por outros seus colegas, que mantiveram os serviços cirúrgicos em funcionamento até á ocupação e nacionalização do nosso Hospital em 1975.

Antes de terminarmos este capítulo da ConstrucaoSCMRMR_foto4história da nossa Santa Casa é de referir o empenhamento da população do concelho de Rio Maior, na construção do Hospital e na sua manutenção. Os cortejos de oferendas, dos quais destaco o realizado em 17 de Dezembro de 1944, segundo o relato do Jornal «Concelho de Rio Maior», de 15 de janeiro de 1945: «o desfile durou mais de três horas e nele tomaram parte 272 carros. Foi sem dúvida a maior manifestação de solidariedade ocorrida em Rio Maior.»

Em 1975, entramos o 3.º Capitulo da história da Misericórdia de Rio Maior, iniciado com a Nacionalização do nosso Hospital. O Dec. Lei 704/74 de 7 de Dezembro, nacionalizou os hospitais Distritais, propriedade das Misericórdias do que resultou estas reagirem fortemente contra tamanha injustiça e violento esbulho. Logo em Novembro de 1975, o Dec. Lei. 618/75, nacionalizou também os Hospitais concelhios e decretando ainda a extinção das Misericórdias, que privadas dos seus Hospitais, não tivessem outros serviços ou estabelecimentos. Todas as Misericórdias estavam a trabalhar com os seus hospitais na área da saúde, dai que, correram o risco de serem extintas e os seus bens passarem a património do Estado. Para lutarem contra esta prepotência Estatal, foi convocado para Viseu, o V Congresso das Misericórdias, do qual saiu a fundação da União das Misericórdias Portuguesas a que presidiu o Provedor da Misericórdia de Viseu Padre Dr. Virgílio Lopes, até ao seu falecimento e que é actualmente presidida pelo Padre Dr. Vítor Melicias Lopes. Para evitar a sua extinção que lhe chegou a ser comunicado por oficio das Entidades Estatais, a Mesa da Misericórdia de Rio Maior que então a dirigia, tomou a seu cargo um pequeno Jardim de Infância da Paróquia, instalado nas Industrias Carnes Nobre, o qual deu lugar ao actual Jardim de Infância, Creche e A.T.L., para onde foram transferidas as crianças e o pessoal existente naquele Jardim de Infância, conforme acta de 30/10/79.

Este Jardim de Infância «O Ninho» com 176 crianças e a «Creche Familiar», que conta com 12 amas, que apoiam mais 48 bebes, são um motivo de orgulho do trabalho da Santa Casa na área da educação e apoio ás famílias. No final do ano de 1984, após ser inaugurado o novo Centro de saúde, foi-nos restituído o Hospital, bastante degradado, o que obrigava a dispendiosas obras de recuperação. Convocada uma Assembleia Geral Extraordinária, nos termos do Art. 31 dos actual Compromisso de 1982, foi decidido, por expressiva maioria, que o edifício do Hospital deveria voltar abrir ao serviço da comunidade, na área da Saúde, para o que fora construído e mantido com o esforço e a dedicação de toda a população do concelho. Verificava-se todavia um curioso e preocupante problema: a Misericórdia era o Hospital e uma vez que o Hospital foi nacionalizado, deixou portanto de pertencer à Misericórdia, esta teria desaparecido! Ter-se-ia extinguido? Este estranho sentimento, generalizado no povo do concelho, levou a que a Santa Casa da Misericórdia deixasse de ter aquele apoio, estimulo e ajuda de que antes desfrutava.

Os riomaiorenses não entenderam ainda, e já passaram 25 anos, a enorme capacidade da reconversão da nossa Misericórdia, em transferir para o campo da Acção Social, os serviços à Comunidade, que antes exercia apenas na área da Saúde. Dentro de um plano de acção maduramente estudado, levou a que na impossibilidade de reabrir o edifício como hospital, por falta de apoio do Ministério da Saúde, se instalasse ali, uma acção «Social e de Saúde», na altura inédita, a qual constava de um Lar de Grandes Dependentes, uma resposta necessária á enorme quantidade de doentes com alta hospitalar, por se terem esgotado as possibilidades de cura ou em situações em que os familiares dificilmente os podiam manter em suas casas. Com um Acordo Tripartido Atípico entre o Ministério da Segurança Social, Ministério da Saúde e a Santa Casa da Misericórdia de Rio Maior, abriu o Lar de Grande Dependentes, inicialmente com 20 utentes abrangidos pelo acordo depois alargado para 30 e que actualmente é de 40. Todavia, a nossa Misericórdia não podia esquecer a sua vocação na área da saúde, com mais de 240 anos de trabalho, primeiro no Albergue e depois de 1935 no seu novo e bem equipado Hospital. Por isso, ainda ensaiou a reabertura do Bloco Cirúrgico, mas dadas as dificuldades surgidas na formação de uma equipa médica, que pudesse acompanhar os doentes no pós operatório, suspendeu estes serviços, mas ainda não desistiu de levar para a frente essa acção. Ao mesmo tempo montou um Centro Médico de Consultas de Especialidade e Meios de Diagnóstico, onde ilustres médicos de 12 especialidades, dão um valioso apoio à comunidade de Rio Maior e alguns concelhos limítrofes. Há 40 anos a Misericórdia de Rio Maior tinha 9 funcionários e um Capelão, com um orçamento para o ano de 1959, de 168.013$60. Neste momento, não contando com os médicos especialistas que aqui desenvolvem a sua preciosa acção, temos um quadro com 76 funcionários e um Orçamento para o ano 2000 de 222.252.382$00.

Terminaríamos aqui estes apontamentos sobre a História e a actividade desta Instituição, que já ultrapassou 240 anos na prática das Obras de Misericórdia. Contudo, falta referir a extraordinária acção desta Irmandade, na sua componente Religiosa. Iniciada na pequena capela anexa ao Albergue, ambos já existentes quando da instituição da Misericórdia no ano de 1759, a mesma sofreu através destes longos anos, várias obras de restauro e foi ampliada, cujos trabalhos foram iniciados no principio de Maio de 1898 e terminados em 1902. Esta Capela, já então servia de Igreja Matriz, além de ampliada, com a construção de uns arcos do lado Norte, lageamento do piso no corredor e douramento do Altar Mor, ficou com a configuração que ainda hoje apresenta. Todas estas obras e melhoramentos foram concebidos e mandados executar pelo Reverendo Padre Gaspar Antunes da Costa, que tomou posse da freguesia de Rio Maior, em 10 de setembro de 1882. Tudo se encontra primorosamente relatado pelo Padre Gaspar da Costa, num «memorial», encontrado dentro do Sacrário da Igreja da Misericórdia, durante o restauro e douramento do Altar Mor, efectuado em 18 de Fevereiro de 1994. Também nesse ano o edifício da Igreja sofreu vultuosas obras na cobertura e substituição do tecto, pintura e grande reparação das janelas. Para terminar diremos apenas que a Irmandade da Misericórdia, pelo menos desde 1867, sempre realizou as Cerimónias Religiosas Quaresmais, a que os seus sucessivos compromissos obrigaram, não obstante as várias e referidas perturbações sócio-politicas, ocorridas ao longo dos últimos dois séculos. As Procissões dos «Passos» e do »Enterro», continuam a percorrer anualmente as ruas da nossa cidade, com um esplendor e grandiosidade notáveis que atraem uma enorme multidão de fieis. Ainda não há muitos anos se realizavam em Domingo de Páscoa a Procissão da Ressurreição ou do Triunfo, como era referida nos mais antigos compromissos, mas que caiu em desuso.

Em termos futuros a Mesa Administrativa da Misericórdia traçou um plano que deverá ser desenvolvido em 3 fases:

  • Na primeira: A curto prazo será construído um edifício para instalar definitivamente o Centro Médico de Especialidades.
  • Na Segunda: A médio prazo passará pela construção de um Lar para Grandes Dependentes, cujo projecto vai ser em breve encomendado e que é destinado a receber os nossos utentes, que ocupam actualmente o edifício do antigo Hospital, e os que de futuro necessitem de internamento.
  • Na terceira: A mais longo prazo, prevê-se a reconstrução do Hospital, para que volte à sua primitiva missão hospitalar, como unidade integrada na rede prevista pelo Ministério da Saúde, e como Hospital de segunda linha. Na área social, prevê-se poder iniciar o apoio domiciliário, que julgamos necessário, para tentar manter os idosos nas suas residências até necessitarem de internamento, que em qualquer caso deve ser um recurso final.

E assim terminamos uma muito resumida história, desta nossa Santa Casa da Misericórdia de Rio Maior, que nos seus 240 anos de Ação, na prática das Obras de Misericórdia, a mais antiga Instituição da nossa terra, mais velha 77 anos, que o próprio concelho de Rio Maior, criado na reforma administrativa de 1836.